PLANEJAMENTO NA SALA DE AULA: VISÃO TÉCNICA

TENHO ESTADO FORA NA MAIOR PARTE DO TEMPO; PALESTRAS, CURSOS… TÊM CONSTITUÍDO MEU TRABALHO BRASIL AFORA. FALTOU-ME TEMPO PARA ALIMENTAR MEU BLOG.

AGORA, APROVEITO PARTE DO MATERIAL QUE PREPAREI PARA UMA UNIVERSIDADE DO RIO DE JANEIRO, ONDE TRABALHAREI NO PLANEJAMENTO DE SALA DE AULA NOS PRIMEIROS DIAS DE AGOSTO, JÁ NA SEMANA QUE VEM. SERÁ PROVEITOSO PARA ALGUNS: AS ADAPTAÇÕES PARA O ENSINO BÁSICO SÃO POUCAS E FÁCEIS.

RESULTADOS ESPERADOS DA AÇÃO DE UMA UNIVERSIDADE PRIVADA

  • Crescimento econômico e solidez financeira; visibilidade e presença;
  • Oferecimento, à sociedade, de profissionais competentes em todos os sentidos;
  • Contribuição para uma sociedade mais justa, mais democrática e para aética e para a sustentabilidade planetárias.


Funções do planejamento:

  • esclarecer as ideias, firmar as opções;
  • compreender melhor a realidade;
  • organizar os processos de prática;
  • estabelecer a coerência entre as ideias, os processos e os resultados.


MODELO BÁSICO DO PLANO DE SALA DE AULA

I. MARCO OPERATIVO

(Ideal de aluno para aquele nível, princípios pedagógicos, ideal de metodologia, linhas conceituais básicas, prioridades ideais para os processos)

II. DIAGNÓSTICO

(Avaliação dos alunos e dos processos criados pelo professor, tendo como critérios os indicadores provenientes do Marco Operativo. Esta avaliação – inicial e continuada – mostrará as necessidades)

III. PROGRAMAÇÃO

(Propostas de prática para sanar as necessidades que é possível sanar, no todo ou em parte – Este será o conteúdo das aulas expresso nas quatro categorias com que se pode mudar a realidade)

  • AÇÕES
  • ATITUDES
  • REGRAS
  • ROTINAS


Na programação de qualquer plano

OBJETIVO: Ação mais resultado esperado

ESTRATÉGIA: Atitude mais resultado esperado

NORMA: Regra mais resultado esperado

ATIVIDADE PERMANENTE: Rotina mais resultado esperado


Objetivo é:

  • a proposta de uma ação concreta,
  • para o professor, para os alunos ou para professor e alunos,
  • para sanar determinada(s)necessidade(s),
  • e, assim, transformar a realidade,
  • para aproximá-la do que ficou estabelecido no Marco Operativo.

Por isto, no seu modo de apresentação, o objetivo tem duas partes: ao enunciá-lo, diz-se O QUE SE VAI FAZER e O PARA QUE SE VAI FAZÊ-LO. Não basta definir o que se vai fazer; é fundamental que se saiba PARA QUE se propõe a ação. É também fundamental que este “para que” da ação concreta seja retirado do Marco Operativo


Estratégia é

a proposta de uma atitude,

a ser vivenciada pelo professor, pelos alunos ou por professor e alunos,

para sanar determinada(s) necessidade(s),

e, assim, transformar a realidade,

para aproximá-la do que está definido no Marco Operativo.


A estratégia é maneira de vivenciar um valor, modo prático de se comprometer com um princípio. É um espírito que serve de guia a tudo o que fazemos.

Neste sentido uma estratégia é um modo de viver. Alguém pode dizer que propõe uma estratégia para sua vida quando decide que vai fazer mais exercícios físicos; estabelecer isto não é definir uma ação concreta fechada (como se faz no objetivo), mas é tomar uma atitude que vai ter consequências muito importantes, inclusive a de gerar ações concretas.


EXEMPLOS DE PROGRAMAÇÃO PARA A SALA DE AULA

Objetivos

  • Visitar a fábrica de sapatos “X” e elaborar um relatório da visita / a fim de crescer na capacidade de se expressar com precisão nos assuntos relativos à profissão.
  • Estudar o relacionamento entre ciência e técnica / para compreender a importância da pesquisa pura.
  • Realizar uma pesquisa sobre as condições econômicas das famílias dos alunos de dois cursos da universidade, comparar e debater os resultados / para aumentar a compreensão do método científico e a consciência dos processos econômicos.
  • Estudar os resultados alcançados em 50 extrações de dente / para aperfeiçoar as técnicas e os processos de diagnóstico.
  • Construir um robô (definir algumas características) / para aprofundar a clareza da relação entre o pensar e o fazer.
  • Estudar conceitos, modelos, técnicas e instrumentos de planejamento e elaborar, como exercício, um plano de médio prazo na linha do planejamento participativo / para aumentar a motivação e a capacitação na linha de transformar ideias em realidade.

Estratégias

  • Buscar sempre as causas dos fenômenos / para crescer em segurança e responsabilidade.
  • Ouvir com atenção os argumentos dos colegas / para melhorar as condições de trabalho em equipe e compreender que aprendemos na relação com os outros.
  • Ter a mente aberta a dúvidas / para crescer na flexibilidade e na tolerância.
  • Diminuir o uso da aula expositiva / a fim de que os alunos sejam sujeitos em seu desenvolvimento.

Normas

  • Ninguém poderá deixar a aula sem pedir licença à turma / a fim de que aumente a responsabilidade.
  • Todos os alunos deverão apresentar a solução de um problema suscitado dentro da disciplina, em forma de texto ou de exposição oral / a fim de que aumente sua segurança no conhecimento.

Atividades Permanentes

  • Realizar, todas as sextas-feiras, uma avaliação dos trabalhos da semana / para crescer na persistência em buscar resultados previamente definidos.
  • Visitar, na última quinta-feira de cada mês, um grupo ou ambiente de cultura diferente / para entender e aceitar diferenças culturais.


Possíveis questões para facilitar a elaboração de um Marco de Referência (MO) para disciplinas numa universidade

  • Quais devem ser as características do trabalho nestadisciplina a fim de que ele possa contribuir para a realização dos valoresconstantes no marco político (estratégico) e nas linhas da proposta pedagógica(marco operativo) da universidade, da faculdade e do curso?
  • Que compromissose que opções esta disciplina deve ajudar a construir?
  • Que habilidadesesta disciplina deve desenvolver?
  • Que áreas deconhecimento esta disciplina deve desenvolver?
  • Que valores devemser debatidos nesta disciplina?
  • Em resumo, quecompetências esta disciplina deve desenvolver?
  • Que direcionamentos metodológicos são adequados para realizar a proposta ideal desta disciplina?
  • O que éimportante nesta disciplina para que o aluno se eduque integralmente, sempre em crescimento?
  • Com que elementos esta disciplina deve contribuir para a construção do perfil profissional ideal destes alunos?


REFLEXÕES ÚTEIS PARA ASESCOLAS DE HOJE

  1. As escolas não podem ser muito melhores do que asociedade na qual estão inseridas, mesmo que professoras(es) sejam perfeitos.Isto vem da própria natureza da escola que é, sempre, reprodutora da sociedadena qual está.
  2. Professoras e professores não podem ser profissionaisperfeitos. O conjunto de saberes, de ideologia e de virtudes necessários paraisto é inalcançável.
  3. É necessário, contudo, que as escolas não sejam pioresdo que a sociedade na qual estão inseridas. Este parece que deve ser o grandeobjetivo de nosso trabalho.
  4. Para que isto aconteça é necessário:
  • Passar, do planejamento do “como” e do “com que”fazer, para o planejamento do “o que” e do “para que” fazer.
  • Estudar continuamente as ideias que surgem, a cadadia, propondo uma nova sociedade e um novo ensino.
  • Dar um caráter diagnóstico à avaliação, excluindo todaclassificação e reforço à domesticação.
  • Investir em metodologias que privilegiem a atividade ea participação dos alunos e reduza a fala do professor e da professora.


DICAS DA CONFERÊNCIA MUNDIAL SOBRE ENSINO SUPERIOR(UNESCO)

Folha de São Paulo, 07 de outubro de 1998.


Dez mandamentos douniversitário do século 21

1. Seja flexível, isto é, não se especialize demais.

2. Invista na criatividade, não só no conhecimento.

3. Aprenda a lidar com incertezas (o mundo está assim).

4. Prepare-se para estudar durante toda a vida.

5. Tenha habilidades sociais e capacidade de expressão.

6. Saiba trabalhar em grupo, bons empregos exigem isto.

7. Esteja pronto para assumir responsabilidades.

8. Busque ser empreendedor, talvez você crie seu emprego.

9. Entenda as diferenças culturais (o trabalhoglobalizou).

10. Adquira intimidade com novas tecnologias, como ainternet.

(Fonte: “As Demandas doMundo do Trabalho”, de Ulrich Teichler, Centro para a Pesquisa sobre Ensino Superior da Universidade de Kassel, Alemanha).


Na mesma linha…

“A qualificação para o posto de trabalho, traduzida no treinamento restrito às tarefas exigidas em uma ocupação, deve ser revista em face da realidade que seconfigura, a qual exige do funcionário, veterano ou novato, uma noção ampla decomo opera sua empresa, do mercado em que trabalha, do que pensa o consumidor final sobre o produto que está comprando. Verifica-se que a qualidade intelectual mais valorizada nas novas organizações empresariais é a capacidadede entender e se comunicar com o mundo que está a sua volta.”

“(…) Nos dias atuais, assegurar a qualidade profissional da formação profissional relaciona-se à preparação dos indivíduos para qualificações úteis não apenas acurto prazo como também a longo prazo.” (Formação Profissional SENAC – UmaProposta para o Setor Comércio e Serviços)

“As melhores organizações do futuro serão aquelas quedescobrirão como despertar o empenho e a capacidade de aprender das pessoas emtodos os níveis da organização.”

“(…) Ninguém precisa ensinar uma criança a aprender. Defato ninguém precisa ensinar nada às crianças na primeira infância, pois elassão intrinsecamente curiosas e aprendem por si mesmas a andar, a falar e até acorrer pela casa, O aprendizado faz parte da nossa natureza e, além disto, todoser humano gosta de aprender. Quase todos nós, em alguma época, fizemos partede uma grande ‘equipe’, um grupo de pessoas que faziam coisas juntas de maneira extraordinária – que confiavam umas nas outras, que complementavam suas forçase compensavam suas limitações, que tinham um objetivo comum maior que osobjetivos individuais e que produziam resultados extraordinários.”

SENGE, Peter M. “A Quinta Disciplina”, Editora BestSeller, São Paulo.


O planejamento para o tipo de busca representado pelas ideias acima precisadeslocar seu enfoque: em vez de concentrar-se em responder as perguntas sobre o“como” fazer e sobre o “com que” fazê-lo, precisa definir, com determinação,resposta às questões sobre “o que” fazer e sobre o “para que” fazê-lo. Numa sociedade mais estática o primeiro tipo de planejamento é o suficiente; numa sociedade em transição só o segundo tipo terá condições de sustentar uma prática digna.







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A escola que já podemos construir – COMODORO, MT

Estive esta semana num município que não conhecia: COMODORO, no Estado de Mato Grosso. Disse-me o Prefeito que, no Município, caberia o Estado de Sergipe. De fato, fui de avião até Vilhena (RO) e, depois, de carro até a sede do Município. Foram aproximadamente 100 quilômetros desde que passamos a divisa e me disseram que ainda o Município continuava por mais 55 quilômetros além da sede.

É município novo, tendo sido criado há um pouco mais de 20 anos e composto por uma população oriunda de várias partes do Brasil, atraída por amplas áreas de agricultura e pecuária e por madeiras, ainda livremente exploradas naquela época; é município de uns 26 mil habitantes, pequena parte deles indígenas, cujas terra são muitas, somando 62% do território.

Havia um seminário de três dias sobre os caminhos da educação no Município. Cabia-me coordenar uma manhã de estudos sobre PROJETO PEDAGÓGICO e sobre uma APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA ATRAVÉS DE PROJETOS DE ESTUDO. Foi um excelente trabalho, embora professoras e professores ficassem muito discretos e discretas com receio de participar através da palavra.

Escrevo porque me chamou a atenção o desenvolvimento educacional do Município, direcionado a uma escola-vida. Como havia três realidades bem diversas, três projetos pedagógicos distintos foram concebidos: para a escola indígena, para a urbana e para a do campo. Poderíamos pensar que este processo levasse a uma discriminação de pessoas, com uma escola de pior qualidade para um ou outro grupo. O que acontece é o contrário: como estão partindo das realidades que cercam cada grupo, professoras(es) aumentam sua autoestima e as crianças sentem-se motivadas a agir e, assim, a aprender cada vez mais. Em minha palestra e nas conversas com a coordenação da Secretaria de Educação chamei a atenção para a necessidade de ampliar os campos de interesse em duas direções: realizar estudos sobre aspectos culturais e sociais do Estado, do Brasil, das Américas e do mundo e não limitar a alguns itens muito pobres os conhecimentos, mas abrir-se para questões econômicas, políticas, psicológicas, científicas em geral, de ética planetária… Aquilo que o Ministério da Educação apresenta como conteúdos transversais já está sendo realizado com muito êxito porque o Município entendeu aquele saber como essencial, central e não apenas um conhecimento que se busque de través, como, por medo de mexer no âmago da escola, entendeu o Conselho Nacional de Educação.

As escolas trabalham com projetos, tanto de produção como os característicos projetos de estudo, muitas vezes com estas duas conotações integradas; com isto realizam-se, com significativa profundidade, as aprendizagens propostas pela UNESCO e que chamamos normalmente de “os quatro pilares da educação”: aprende-se a aprender, a ser, a fazer e a conviver. É encantador ouvir as escolas apresentando seus trabalhos e seus resultados com estes projetos, ajudando a população a crescer, pessoa por pessoa e como comunidade inteira. Sente-se como normal que o livro didático seja apenas uma pequena ajuda e que outras ferramentas e procedimentos assumam o verdadeiro fazer escolar. Acrescento algo por minha conta (não falamos nisto, ninguém reivindicou): é pena que se gaste todo este dinheiro com livro didático, processo empobrecedor, que leva à infantilização de alunos e professores, e que não haja recursos para jornais, revistas, livros, filmes, vídeos… para ampliar e para aprofundar o conhecimento, o desenvolvimento de habilidades e a construção de hierarquias de valores.

Alertei e pedi, respectivamente, para a necessidade de teorizar, com mais profundidade, este trabalho que constrói uma escola para o século vinte e um, ligada à vida e à realidade, com alguns trabalhos inteiramente transdisciplinares e que publicassem algo a respeito para incentivar outros municípios a realizarem uma revolução escolar, sensata, com base científica e filosófica, para o bem social do presente e do futuro.

 

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Uma escola para ricos; outra para pobres

Escrevi para VEJA. Mas eles não publicaram. Publico aqui: embora breve, dá uma ideia. O complicado é que a proposta de Ioschpe é assustadora: para os ricos haveria uma escola completa, com um currículo rico, e para os pobres só Português, Matemática e Ciências. Ele é economista e acho que busca seriamente uma solução já que a escola não pode ficar assim.

Gustavo Ioschpe trata de um tema candente em VEJA de 11 de abril: o acúmulo de conteúdos na escola básica. E há uns 300 projetos, no congresso nacional e nas assembleias legislativas estaduais, propondo mais matérias. É que, desde que se criou a escola com a função de passar, às crianças e aos adolescentes, o conhecimento que a humanidade construiu através da História, este saber cresceu a tal ponto que ficou impossível até de ser catalogado por uma pessoa só: chega a ser grotesco que alguns, até nas escolas de professores, pensem, ainda hoje, um ideal assim.

Mas a saída não pode ser a que ele propõe. Primeiro porque nada pode, felizmente, fazer-nos iguais. Muito menos a escola, cujo papel – seja ou não utopia – deve ser o de ajudar-nos a buscar, com plenitude, nossa identidade, sempre socialmente compreendida. Segundo porque é necessário, até para produzir mais e melhor, o acesso de todos aos grandes benefícios da cultura humana. Por isto, agora que todos entram na escola, será necessário programar um sistema de ensino transdisciplinar: um professor por turma de alunos, claro que variando ano após ano, ajudando os alunos a se alfabetizarem e a se aprofundarem, até o limite das possibilidades, nos campos linguístico, científico, matemático, filosófico, econômico, cultural e social. Não haveria disciplinas – necessárias para o ensino superior e para os cursos técnicos e todos os de preparação de trabalhadores, onde o fim é a especialização – mas temas, aprofundando cada vez mais o saber disponível em revistas, jornais, rádio, filmes, vídeos, internet… e numa infinidade de entidades de vários tipos e nas pessoas que compõem a comunidade. Professores precisam ser preparados como cidadãos curiosos, com visão ampla, e especialistas em ajudar a aprender, a construir habilidades e a hierarquizar valores.

 

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O que a Imprensa não quer saber sobre a Educação

Este livro fala sobre aqueles temas relativos à escola aos quais a mídia não dá atenção ou sobre os quais ela não quer falar. Alguns assuntos são acolhidos com entusiasmo, outros são relegados ou aproveitados apenas em sua dimensão sensacionalista e esta escolha é feita pela ideologia do órgão midiático determinado. Quando se trata de ideias a respeito de educação – isto vale, provavelmente, para outros campos do fazer humano – a escolha de publicar ou não leva em conta também a pessoa ou o grupo que está interessado na difusão de tais ideias.

Isto não é estranho, mas natural. Este livro apenas quer dizer que, embora a mídia se diga “formadora de opinião”, ela apenas reproduz a opinião de setores da sociedade e, às vezes, até de pessoas ou de pequenos grupos. De fato, a mídia, seja ela de qualquer tipo, não foge à regra geral de que instituições reproduzem hierarquia de valores da sociedade na qual estão inseridas. Mesmo que se digam democráticos, os meios de comunicação, como as escolas, só o serão – ainda assim parcialmente – com esforço especial e com planejamento adequado.

O livro quer contribuir para que a reflexão sobre os temas fundamentais da escola se alargue e se aprofunde. Para isto contribui chamando a atenção sobre o imprescindível, o fundamental e o importante destes temas.

SE VOCÊ AINDA NÃO ENCONTROU O SEU LIVRO ENTRE EM CONTATO: dgandin@terra.com.br

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O ENEM NÃO É CAMINHO!

Por causa deste título, devo começar esclarecendo que sou favorável ao ENEM dentro de certas circunstâncias que apresentarei logo adiante. Apesar das trapalhadas que vem apresentando, penso que ele cumpre uma etapa importante nas escolas brasileiras. Devo dizer, também, que, como mecanismo permanente na educação, ele não pode, de modo algum, ser aceito. Ele é um bom passo, mas não é o caminho.

Olhem comigo os sinais dos tempos. O mundo dá sinais claros de que teremos que realizar algumas mudanças profundas para reencaminhar a escola à sua missão original. De fato, a escola nasce para ser a maior força – ou, pelo menos, uma das maiores – na tarefa de integrar crianças e adolescentes na sociedade da qual elas e eles passaram a fazer parte. Esta tarefa sempre se exercitou em três linhas fundamentais: conhecimentos, valores e habilidades. Mesmo que haja os que gritam que escolas devem limitar-se ao conhecimento, todos sabem que é impossível o convívio humano sem a vivência de valores – sejam quais forem e em qualquer hierarquia – e, agora, estamos convencidos, como sociedade, que habilidades são mais importantes ainda do que conhecimentos porque estes são facilmente encontrados e aquelas precisam ser exercitadas diuturnamente.

Olhem agora para o ENEM! Ele herda, do vestibular, que há muitos anos entorpece a inteligência de nossos jovens, o seu principal defeito, aquele que o tornou desastroso: o espírito da cruzinha. Muito pior: este espírito, embora todos o vejam todos os dias, funciona como um espião bem aboletado em nossas fileiras de esforçados e dignos trabalhadores, parecendo não existir. Quase ninguém dos que deveriam ter um pouco de luz percebe que a diminuição do que chamam de “qualidade de ensino” tem a ver com a traição das cruzinhas. Elas massificam algo que não suporta massificação; de fato, é possível produzir pratos em série, mas pessoas humanas desabrocham na medida em que forem únicas. Quando poucos iam à escola, a massificação era superada por muitas outras oportunidades que a vida oferecia aos que lá iam porque eles tinham suficiente capital cultural para serem originais. Quando até os pobres vão à escola, as cruzinhas transformam-se em barreiras intransponíveis para muitos. O grande problema é que a satisfação com elas e o revigoramento deste amor por causa do ENEM, tranca a busca de um caminho novo para a escola dos dias de hoje, diante do novo modo de se apresentarem as necessidades do ser humano.

É por isto que o ENEM, se for passageiro, será extremamente benéfico. Ele tem a virtude de apontar para o óbvio: não há um conhecimento pré-determinado para ser bom cidadão, o que inclui ter sucesso num bom curso superior: há, sim, um conjunto de atitudes, entre as quais se destacam a criatividade, o poder de análise, a autonomia, o bom trabalho em equipe… Julgo até que são os anjos que guardam nossa Pátria, os que provocam as trapalhadas do ENEM, para que ele não se firme como mudança definitiva, pois seria exatamente uma daquelas mudanças para que tudo ficasse como está.

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SER PROFESSOR É LEGAL!

           Enviei este artigo para Zero Hora (um dos jornais de Porto Alegre – RS) no domingo, dia 09 do corrente, para uma reflexão no Dia do Professor. Como não foi publicado, apresento-o aqui.                                                           

* * * 

            Muitas vezes, por ocasião de alguma solenidade, aparece a pergunta: “Temos algo para comemorar?” Por exemplo: temos algo a comemorar neste dia dos professores de 2011?

            Professoras e professores constituem uma categoria sobre a qual pesam dúvidas de vários tipos. Há uma convicção de que professores ganham pouco; professoras e professores enfrentam a desconfiança de autoridades e de muitas pessoas da sociedade; quando os resultados escolares são fracos, pensa-se que os professores não têm competência; alguns alunos investem contra professores.

            Na verdade, nada mudou em relação aos professores e às professoras. Como sempre eles e elas são pessoas que vivem sua época e que por ela, nos dias de hoje, estão sendo traídos. O que mudou foi o mundo, em especial ao que se refere aos professores, e esta mudança ainda não foi suficientemente considerada.

            A primeira clareza que é preciso ser divulgada é a de que uma escola – dentro dela os professores – reproduz a sociedade em que ela existe. Até a primeira metade do século vinte, a sociedade tinha uma hierarquia de valores hegemônica e consolidada, algo fundamental no processo educativo. A sociedade realizava o provérbio africano que é a aldeia inteira que educa as crianças. Ao professor cabia reproduzir esta hierarquia em termos de valores, de habilidades e de conhecimentos.

            Como consequência surge a segunda evidência: o professor caracterizava-se por ser alguém. Era privilegiado nas comunidades, não porque fosse rico ou intelectual destacado, mas porque era o representante do que a sociedade considerava importante ser.

            Terceiro: a crise na sociedade – numa transformação extremamente acelerada – abre diferentes hierarquias de valores. Não basta mais, para professores e escolas, ser alguém perfeitamente enquadrado nos valores que a sociedade preza. Isto não existe mais e escolas e professores precisam fazer uma escolha profunda para chegarem a uma hierarquia de valores própria ou derivada do pensamento de algum grupo representativo. Mas isto não é permitido: envolve ideologia e pode representar um perigo para a estabilidade social.

            Por fim, uma quarta mudança envolve professores: todas as crianças e quase a metade dos adolescentes podem entrar na escola. É uma multidão que precisa de comida, de segurança e, sobretudo, pelas condições de suas famílias, dependem, quase inteiramente, da escola para integrar-se na sociedade com saberes diversificados e, consequentemente, com eficácia social.

            Nestas condições – há outras que não cabem aqui – o professor baqueia, perde o chão e entra em crise. Mas é para ele que vão os amores dos alunos, mesmo quando a distância das idades fica muito longínqua. Todas as vezes que ouvimos, depois de vários anos, alunos nossos dizendo que se lembram de nossas aulas e de nossa imagem, podemos dizer: “ser professor é legal!”

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DIA DO PROFESSOR, SOBRETUDO DA PROFESSORA

Disse-me Maria de Lourdes, professora e minha esposa, que, na primeira metade do século vinte, quando se dizia “o” professor, “a” professora estava-se falando do professor e da professora do bairro ou da cidadezinha. Concluiu dizendo que, ao mencionar “o” professor, hoje, estamos falando de Ruy Carlos Ostermann, de Steve Jobs ou de outro que nos tenha dado motivo para destaque. Acrescentou, depois, que este é um dos motivos, entre muitos, das dificuldades que a escola enfrenta hoje.

Analisando a questão, concluímos, ela e eu, que mudou quase tudo dentro da sociedade (mudaram as exigências de conhecimento e de habilidades, multiplicaram-se as hierarquias de valores possíveis, apareceu a necessidade de alfabetização digital e política…), mas a escola, por imposição social, teve que ficar igual.

Professores tiveram sua vida complicada. Não é mais possível ser completo como era um professor daquele tempo. O mundo era mais simples; um professor dominava tudo o que se pensava que um aluno deveria saber; a hierarquia de valores era sólida e única; bastava ser um professor repetitivo, ser carinhoso, exercer o domínio natural sobre o aluno no que concerne aos valores padronizados, ter uma vida moral ilibada e passar por sábio.

Hoje, todas as crianças podem ir à escola, trazem conhecimentos em profusão e têm aptidão para decidir várias coisas sobre seus caminhos na vida. A mesma lição, repetida do mesmo livro, pelo professor, tornou-se enfadonha e inútil. A sociedade e muitíssimos professores deram-se conta da necessidade de uma nova escola, com um novo currículo em termos de conteúdo, avaliação, metodologia e participação. Mas é proibido mudar! Alunos devem ser domesticados – ninguém usa esta palavra, é claro – e, como os pais não sabem mais como fazer isto, encarregam a escola desta tarefa.

Uma decisão sobre a vida do professor é necessária e urgente. Um programa de profissionalização é a única possibilidade viável. Professores precisam ser preparados como médicos: preservando e desenvolvendo o senso de cuidador que vem da vocação, o professor precisa estudar o ser humano, suas fases e suas necessidades com maior iluminação teórica. É claro que ser professor – pelo menos no ensino básico – é mais complexo do que ser médico. Tente reunir a hierarquia de valores necessária para o médico, a complexidade que é tratar de um ser humano e todo o conhecimento para isto necessário e você terá apenas o começo do que um professor precisa: além disto tudo, ele deve ter uma visão de mundo e de vida, construída junto com um grupo docente, e estar capacitado para uma ação sobre as pessoas separadamente e sobre a cultura que, juntos, construímos e reconstruímos incessantemente.

Ser repetidor de lições do livro didático é excluir o cidadão de todo o conhecimento cósmico que hoje se nos apresenta e propiciar-lhe fatiazinhas de conhecimento ressecado como um churrasco carbonizado. Pior do que isto é acentuar a inconsciência ou a consciência mítica e ingênua de que nos fala Paulo Freire.

Onde estão as autoridades, cadê a imprensa, o que pensam as faculdades de formação de professores, que Mandraque imobilizou a nós, professores? Por que sumiram as antigas “escolas normais”, se a faculdade não dá conta do ser pessoa que nelas existia?

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